14/09/2011

Íris.






E a esperança? Ah, quão bela é a esperança a despeito do mal que ela provoca. Quão bela é igualmente a paixão apesar de despir-se do amor sacramentado na essência humana. Quem nesse mundo poderia abdicar o trono e privar-se da vaidade porque ama?
E o que é amar senão o obséquio da sorte? E saber que a paixão engana os príncipes, mas não os depõe. Seria ridículo descobrir que a beleza da paixão existe apesar de estar tão fora dos sonhos?
Será que o sonho é a única ação verdadeiramente nobre apesar de o verbo não poder ser contemplado pela física?
E o amor?! Os tolos, extremamente felizes, os virtuosos que não precisam ouvir a minha voz, essa voz fraca e igualmente tola para eles, não saberão o que de fato o amor denota.
Eles, com todo o seu altruísmo, serão dominados pela beleza! Sim, a beleza e o gozo da paixão. Mas o amor é uma conquista, uma possibilidade brindada à iminência da felicidade de um infeliz.

06/09/2011

Sinestesia*

O amor é a cor
                             O som
                                             O cheiro
Dois lábios conjugando o mesmo verbo
São dois corpos
                                 Brincando de dançar.






*Inspirado no texto "Pandora", do amigo Bráulio Rodrigues.

12/08/2011

À sete notas. [Ensaio I]


A vida é uma sucessão contínua de oportunidades.
(Gabriel García Marquez)


I
Dó ♫

Aquela prosopopeia da correnteza embalava os sonhos de Penélope que era, desde tenra idade, uma condenada que conhecia todas as formas de fuga, porque teve de aprender a fugir de si mesma em virtude da sua forte empatia com o espelho. A vaidade ajudava a conhecer os extremos; o que valeria a pena efetivamente. Mas Penélope era sensível. Essa conjunção adversativa persuadia a sua alma a jubilar diante da maravilha do desenho de verbos efêmeros. Efemeridade, codinome: paixão.
O rio proporcionava entendimento silenciado pelo olhar severo da guria. Porque ela nunca aprendeu a perguntar; desconhecia interrogações porque confiava demasiado na umidade ocular e no movimento das gargantas. São máscaras desnecessárias, pensava ela, porque não desmentiam culpa alguma. Ao contrário: vociferavam com certa altivez a verdade para o momento. Isso: ela também se deleitava colorindo o seu céu com paradoxos antitéticos. Ela não era má pessoa; só precisava de um amor que não encontrava entre suas equações. Então, optou pelo plural como exercício. Seus rapazes nunca a conheceram. Talvez por conta de seu rosto sem espinhas ou por seu frenesi mental.
Um rapaz distinto fora apresentado a Penélope entre claves desgovernadas criadas por ela. Hector era a personificação da cortesia combinada com sua timidez. Ela não o conhecia, mas ele já ouvira falar acerca dela. Eram dois estranhos e o tempo não solucionou o problema.
Houve um intervalo para que ambos amadurecessem suas próprias ideias e ideais. Penélope permanecia em sua rehab amorosa, porque a desconfiança fora sua droga. Seu coração era afável, mas tinha mente severa. Hector buscava, em contrapartida, a desordem para sua paz. E, de certa forma, conseguiu.
Hector amava Penélope, mas era um amor consciente demais para ser sacramentado. Inspirava insubstancialidade porque ele dessubstantivizou o verbo. Penélope não tinha a destreza do chistoso rapaz para conjugar verbos, mas ela sorria. Havia a beleza da distância física para que eles aprendessem a conhecer o sabor da palavra. Entretanto, Penélope queria sinestesia; ele, gradação.
Hector transcendia de um encanto epidêmico para o cavalheirismo hereditário. Era costume. Nada comparado à hipérbole do corpo que se opunha a fragilidade de sua voz. O universo dele era descrito na ponta do lápis e seus rabiscos contavam sua história. Ele sentia atração pela graça das abençoadas cortesãs, mas cultuava o matrimônio. Ele sempre soube como se distrair. O gaiato tinha caligrafia de um gentleman e a voz de um Ministro. Estava no sangue. Ele tinha todas as armas e desarmou-se; todas as palavras, mas calou-se. Tinha tudo, mas era conto.
Era mais simples antes de Penélope porque ela não era normal. Ela não permitia que ele a conhecesse porque sabia que seria em vão; que ele já estava dentro demais para ridicularizar a história. Ele perguntava demais. Muito embora fosse cômodo negar, Penélope não resistia à própria sinceridade: ela o amava. Ela vivera, efetivamente, um amor limpo e purificado pela maldade de não consumá-lo. Ela hesitava em vê-lo porque ele não a poderia tocar porquanto estava fascinado pela alegoria da ficção e ambos atuavam como dois apaixonados, desesperados de saudade. Do que nunca viveram.

14/07/2011

Floπida Veπitatis.

Sinto um vazio que já não é novidade. As minhas contas exatas são sempre nulas. Sinto que o que me falta não são amores; ou ter amor, mas ouvidos. O meu corpo é tão rico que subornou a minha alma. Os meus amigos deleitam-se num sono que ignora a minha loucura. A minha solidão é a punição mais severa. Admito a minha culpa.
O amor pronunciado ao pé-da-letra rasga a minha garganta, porque eu não aprendi a ser clara com toda certeza. Creio que exista um mapa que conduz os meus remédios carnívoros e sensíveis para o meu interior. Eu me anulo quando eu me subtraio de mim. A minha doença é incurável e a completude não existe, porque toda eternidade tem fim.
Essa angustia que eu sinto demonstra o que vale a pena. Eu sempre encontro as minhas respostas, porque ninguém é capaz de responder às minhas interrogações pessoais. Não quero ajuda. Quero sofrer as consequências; deleitar-me à minha desgraça e à minha ventura igualmente.
Eu sou a voz e os sentimentos do outro. Eu minto mesmo falando a verdade porque sentir e dizer são verbos que foram drasticamente separados; que não mais subordinados. Honestamente estou cansada. Cansada de dizer só para não perder e esquecer de sentir efetivamente. Amar não é considerar uma ideia, mas saber. A saudade é o script, mas o medo ainda é o palco.

17/06/2011

O último grito.

Estou tão sã aqui dentro, no meu sono. No meu luto. A minha vulnerabilidade ocular pichou as minhas verdades; sancionou os meus desejos e a minha culpa. A minha biologia confundiu a minha essência. Desmataram a minha selva; civilizaram-me. A minha respiração epidérmica falhou. Castraram o meu gozo espiritual proveniente das minhas fantasias realísticas que me mantinham siamesa ao outro.
Aprendi a cultuar o desespero; chegar ao ápice. Pedir apesar da dúvida; dar apesar do ressarcimento. Tive de me preencher com as águas que refletiam a minha imagem virtual. Fui sonhada por outrem. Invejaram a minha desgraça. O ódio demasiado amava a minha pele. E o amor alheio estampava a minha estante a despeito da necessidade.
O meu rosto é a representação da histeria. A minha armadura está incólume curando a minha bagunça invisível. Quero pedir socorro; gritar. Não desejo ressurreição, mas ter uma alma dentro do meu jazigo. O outro é o meu vício e faz com que eu pereça nessa subordinação. É o suicídio fetichizado, porque eu amo no outro o que ele tem de mim. Minhas emoções são aidéticas, porque fui traída pela falsa cura da dialética sentimental.
Não sei ser palavra avulsa. Sou um substantivo composto cujos hifens foram roubados; arrancados com dolo. O meu ódio protege o amor da minha inveja e da tua periodicidade. Ter é pretérito imperfeito, amor. Abster-me-ei das tuas vírgulas evanescentes; pontuar-me-ei do meu jeito. A inanição humana é canibal; vermelha. A paixão amorosa fora circuncidada e a vontade fora viciada. Minha voz não é despedida, mas salvação. Confessei, com a minha cegueira, a verdade que os meus lábios negavam. Não mais bastava plateia. O silêncio ensurdecia.
A minha anarquia desbocada humilha a mentira verdadeira dos outros. Os meus pensamentos assassinaram as minhas vítimas amadas. Fui traída por minha farsa quando abracei a solidão da coisa; do verbo. Do amor.

05/05/2011

Laços lassos.

       Vem do sangue, mas não precisa correr nas veias. Precisa-se de pulso; dor. Precisa-se amputar. A gestação não dura mais nove meses. O embrião é extrauterino. A mãe não precisa do ventre, mas de consciência. E toda a parentada é formada por vizinhos próximos. É de sangue.
          A árvore é estéril. Há tristeza e esperança, e há quem diga que esperança é uma coisa boa. Quem tu imaginas ser, Família, para prender alguém; acorrentar? Prender-se é morrer aos poucos. Família, entendam, não passa disso: origem.
          A pirâmide hierárquica emocional está armada. E as cordas, surradas por medo, doutrinas e carinho facultativo, não suportam mais o peso da ponte. Todos querem famílias felizes de um mesmo jeito, mas se empenham em ser criativos mediante infelicidade. Família é a faculdade moral do ser humano. É um paradoxo que oscila entre prosperidade e desgraça; um ensaio emocional; todos os tempos verbais; formação passível de formatação. A família é o desenho, a fotografia. Vem do sangue.
         Mas desafia a genética.

11/04/2011

Vεπτιgεµ.

Fonte. Da juventude. Do recomeço. Viver apesar de; não além de. Amizade é secar o copo testado pelo gole singelo da outra parte. É cochichar hostilidades para curar moléstias e vociferar elogios para exibir tal êxito num processo seletivo promovido por nós. Amizade é beijar de longe os lábios; ser o oposto mais compatível. É recortar com tesoura sem ponta. Moldar.
Amizade é compreender que é necessário saber e expor nossas qualidades sem censura. É a coragem emprestada do medo de saber segredos suicidas. Amizade não é gritá-la, mas gritar a alma do amigo. É um amor inventado; uma descoberta. É amor totalitário. É o silêncio quebrado pela voz ocular. É a eternidade resguardada pelo relógio cerebral, porquanto a memória é incubadora dos amores prematuros.
Os amigos dominam os nossos cinco sentidos. A gente ama com os olhos; ouvidos; narinas. Com a boca e com o corpo. Amizade é o teatro verossímil. É certeza; desafio. Amigos de verdade não conseguem criar uma defesa contra o outro. A amizade é assustadora, porque é um jogo limpo; uma pétala de vidro.
É vida. Estar dentro. Amizade é tatuar os pulsos. A tristeza de um amigo nos convida e nós convidamos sua alegria. Amor platônico é transcender a oferta apesar do outro. Amigos sempre sabem dosar. O amor de um amigo não é alegoria, mas samba-enredo. Os amigos nos mantêm vivos. Amizade concreta sabe preencher espaços vazios. Amigos são os espinhos ornamentados com as rosas mais belas.
Mas os sentimentos não são mais preservados, porquanto as pessoas desistem em detrimento de seu ócio emocional. As pessoas mudam e não mais se reconhecem no outro. Somos mutáveis pelos outros. Mutantes. Você, hoje, desama pessoas. Somos todos agiotas de nossos próprios sentimentos, aguardando, ansiosos, alguém devolvê-los.