24/12/2012

Donun Vitae


Não vim desejar-lhes um Feliz Natal, nem um Próspero Ano Novo. Não vim dizer-lhes que espero isso ou aquilo, que envio orações desesperadas pelas vidas de vós ao Nosso Senhor, porque eu tenho senso. Desfaçam essas caras de sofrimento, levantem essas carcaças cansadas por sabe-se lá o que. O cansaço existe, porque ele mesmo convém a vós.
Torçam seus pescoços cada vez que murmurarem por misericórdia; por chuva de soluções. Parem de chorar; de pedir. Curvem-se e rezem, orem, cultuem aquele que realmente permitiu que o Natal existisse.
A vida é uma história como outra qualquer. Tenho a sensação de que somos ligados quase tão somente pelo início e pelo fim dessa história. Eu bem sei que somos mesmo tantos “objetos-quase”. Quase qualquer coisa.
A linearidade da vida é, em sua substância, tênue. Os antagonismos devem ser aceitos. Há de haver os alicerces, bem como há de haver o que alicerçar. Os outros são, destarte, necessários. Meus queridos indesej(áveis)ados, eu os amo.
Os sonhos são a resposta às perguntas humanas. As perguntas estão encarregadas das verdades. Estas que são uma das maiores preocupações humanas são respondidas em suas próprias interrogações. A sinceridade é uma grande especulação, digamos.
Contos de fadas não existem. Os laços criados pela vida e desfeitos por ela própria determinam a narrativa de uma boa história. Tudo acaba para que haja saudade. E há saudade para que se possa esquecer, ainda que tão somente traços faciais; cenhos franzidos.
Lembrem-se dos abraços, sorriam para seus devaneios e agradeçam. Nem mesmo o óbito é tão funesto quando a renúncia do deleite desta única jornada. Feliz Vida!

25/09/2012

Just

As incertezas constroem ligações que as respostas, aos poucos, acalentam sob a monotonia. Não se aprende tão rapidamente, ainda que se leia, que os questionamentos jamais devem ser verbalmente direcionados a outrem, uma vez que o verbo não consegue ser preciso ou pelo menos tão preciso quanto um par de olhos úmidos refletindo qualquer manifestação luminosa, como dois faróis denunciando a cura para alguma enfermidade intrínseca. 
O amor é bastante curioso. É o primeiro, a despeito da esperança. O seu dualismo e pragmatismo modelam seus hospedeiros, confundindo a razão para, de alguma forma, aprisiona-los num feudo mágico, do qual optam ou por um ponto final ou por reticências. 
Declaro que todos os meus amados tem ou, pelo menos, devem ter, acerca de mim, alguma opinião, avaliação ou qualquer coisa repousando ao anonimato do receio da ausência de precisão. 
Não existe solidão, porque ela mesma não conquistou sua própria coerência. Assim como não há dois amantes que ignorem a ausência um do outro, porque se isso for irrelevante, digo: se a ausência for tão somente fisicamente notada e toda a aura onipresente que os aproxima for esquecida e, desta forma, rompida, eles estarão acabados. 
Eu creio nos antagonismos, porque são eles que são capazes de justificar as verdades. É sim ou não; bom ou ruim; bem ou mal. Cada qual com sua respectiva beleza. 
O nascimento e a morte. Começo e fim. 
Parece-me que o mundo anda demasiado monocromático; que a difusão de cores, pelo menos as que eu conheço, sofreu falência. Os laços não existem. Disso eu tenho convicção. Somos, todos, o Pacífico fragmentado em gotas de chuva, que colidem nesta Terra e depois desaparecem. Somos o todo. Ma(i)s nada. 


A Petterson Farias. 

01/01/2012

Nostalgia.*


“Eu sou aquilo que perdi.”
(Fernando Pessoa)

O sol exercia o mesmo efeito que aquele nos Círculos Polares Árticos e Antárticos, no verão. Mas era inverno. E a melancolia era mistura heterogênea à companhia do orgulho. Era a completude abraçando a despedida e o bom senso sustentando o próprio senso. Seus olhos eram lanternas acesas ofuscadas pela dúvida em detrimento da decisão minimamente considerada outrora. Embebedado pelo mito cavernal, cedera ao evento oportuno.
As íris trêmulas brindavam e escorriam antiteticamente. Sua consciência era grata, mas o inconsciente renunciava, pois que viver é optar. É continuar. Viver é também despedir-se. É moldar-se; vestir-se de memórias. Deve-se percorrer as escolhas passionalmente para que seja possível contemplar a completude, ainda que remota. É estar, a despeito de ser. Porque a vida dispensa a perenidade.
O lhano aprendera gradativamente que se deve apreciar e igualmente passear por sentimentos e sensações sapientemente; com abandono absoluto. E almejava-se que a melancolia não incorresse luto; perdas. Que as lágrimas não cessassem consoantes ao esquecimento, mas que emergissem ao deleite da anamnese.
Os superlativos há muito estavam subordinados aos adjetivos primitivos; móbeis à incerteza. Havia a pusilanimidade emocional e lisura branda. E fé. Suas aspirações eram pentágonos estéreis aos vácuos que ameaçam a união, contudo há de se pensar. Há de se parar. E o coração pulsava, portanto pensar à sua companhia seria suicídio.
Lembrara-se, afinal, da homogeneidade entre reciprocidade e proporção. E sorrira sutilmente, pois, impulsionado pela saudade antecipada, quis com todas as forças deleitar-se à nova ventura. Estar é o verbo que mais vale a pena, pois é a representação da pressa demandada pelo presente; da possibilidade de trasladar. É o perdão do egocentrismo hesitante paralelo à virtude da renúncia.
É cômica a dança dos tempos verbais. É cômico, outrossim, o ônus do sentimentalismo apesar de ser deleite. Ele lembrara-se com saudade do que ainda não era passado, e doía mais que o esquecimento. Lembrara-se de que seria eterno. Sem precisar ser ‘pra sempre.

*Para o amigo Alisson Silva.

27/12/2011

Latência.


Acabara de ressuscitar do sonho. Os olhos ainda lacravam seu rostinho. Pois que se se vive por um dia, criança; é porque sobreviveu. Abrira os olhos finalmente para contemplar aquela paisagem pálida. Ele descera as escadas e correra para o jardim. Fechou os olhos como que praticando uma autoeducação sensitiva. Saboreou o aroma das flores, ouviu o vento mergulhar entre elas e as acariciou com as mãozinhas. “Éli-ú-tê-ó”, sussurrou.
Viver é um paradoxo porque viver é poesia. A felicidade da serenidade e a paz que o pequeno buscava, ele buscara ao contrário. Não sentira dor, não lagrimara. Apenas sorrira. Ele brincava de ligar e desligar-se da própria vida.
Súbito, voltara-se para a cabana inóspita. Lembrara-se do que buscava — uma chave que abria nada. Era véspera. Fora véspera várias vezes. Ele simulava as cores. Escrevia no ar. Pontuava as entrelinhas. Ele criava seus próprios quadrinhos e dançava enquanto percorria as folhas.
À noite, repousava sobre a grama e aquecia-se com um lençol escuro com pinguinhos brilhantes. Transubstanciava o desconhecido coadunado a sua fé. Sua felicidade estava inscrita nos verbos, pois que quem conjuga o substantivo verbaliza a dinâmica da alma.
Lembrara-se da seda trajando uma rapariga que nunca trajara seda, mas isso muito pouco importava porque a estória era dele.
Lembrara-se de que era sonho, porque ele sentia uma plenitude arrebatadora, pois que não havia solidão naquele teatro mudo. Havia toda a gente que fugia de sua íris porque ele estava no escuro da luz inconsciente. Mas ele os via. Ele a via, mas não havia. Seu coração não estava preparado para quando ele despertasse do sono, pois que para a ele a vida era surpresa deliciosa.
Lembrara-se de que crescera, mas ainda sonhava.
Lembrara-se de que o mundo está recheado de pessoas importantes; de pessoas não que substituam, mas que preencham. Lembrara-se de que já perdera certa vez. Aprendera que amar é permitir que o outro voe e permitir-se igualmente voar. E que amar alguém é também desapegar-se e não coisificar para colar em álbuns. Aprendera a despedir-se para vincular-se a alma de quem existiu para eternizar a figura tocável e eternizar lembranças ainda que não vividas.
Lembrara-se de que era verdade porque ele queria com todas as forças que o fosse. E aqueles olhos por trás dos lenços que mimetizavam uma pseudo personalidade o fortaleciam. Eram apenas flores, afinal. Ele ainda tinha mãozinhas. Eram flores com rostos; eram amores. Era a solidão no meio das rosas. Era o grito silencioso do ego pedindo perdão. Lamentara a luz do sol queimando suas memórias. Lembrara-se de ser feliz.
Lembrara-se porque sabia amar.

29/09/2011

O baile dos suspiros.


Eu não mereço o teu amor porque eu não te amo como tu me amas. E tu não mereces o meu amor porque tu não o conheces. Ah, como é belo o amor recíproco! E como é sonora a dança dos cavalos conduzindo a carruagem! Eu não te amo como tu me amas porque eu não quero. Porque eu sou vulnerável e igualmente submissa a minha subjetividade. Eu não te amo como tu me amas porque eu posso amar. Eu não te amo para que saibas, mas para que sintas.
Quanto eu te amo? Quanto?! Não sei! Eu soletro o substantivo, conjugo o verbo. Ainda assim tu não sentes a minha alma. Vejo que não é da minha voz que tu precisas ou da minha caligrafia. Vejo que queres tomar a minha mão para uma dança cômica. E verifico que tu me amaste materialmente.
E eu que tenho sido aplaudida, elogiada. Eu que sempre fui o paradigma dos meus precursores. Eu ... eu me vejo esquivada e igualmente mesquinha. Ai, eu queria gritar que eu te odeio! Só ‘pra contrariar. Mas eu não consigo porque o que eu encontro é um sabor incólume de amor.
Ah, por que os olhos deslumbrados pelo verbo se já sabes? Ó, grande amor! Esperaste de mim uma ventura. E eu de ti a grata sorte sublinhada em confissões.
Tu estás inscrito nas minhas paredes vítreas. Quebra! Rouba! E serás absolvido. Não percas tempo considerando as vírgulas e as reticências quando o que queres é só pontuar com um ponto. O meu amor é histérico e a minha austeridade brinca com a tua timidez. Podias ter abraçado a minha sombra e tê-la amado. Podias não mais me amar porque te enganaste outrora. Poderia eu ser uma desconhecida, mas o que tu conheces? Ah, estou enfastiada desse teatro! Onde é que está toda a gente do mundo?
E tu, meu amigo... ah, tu ainda sonhas e te comoves com essa virtualidade. Tenho dó dos teus sonhos porque eu nunca durmo. Esperando tu acordares.

Tu me dás a tua alma. Eu te dou o meu corpo. 

14/09/2011

Íris.






E a esperança? Ah, quão bela é a esperança a despeito do mal que ela provoca. Quão bela é igualmente a paixão apesar de despir-se do amor sacramentado na essência humana. Quem nesse mundo poderia abdicar o trono e privar-se da vaidade porque ama?
E o que é amar senão o obséquio da sorte? E saber que a paixão engana os príncipes, mas não os depõe. Seria ridículo descobrir que a beleza da paixão existe apesar de estar tão fora dos sonhos?
Será que o sonho é a única ação verdadeiramente nobre apesar de o verbo não poder ser contemplado pela física?
E o amor?! Os tolos, extremamente felizes, os virtuosos que não precisam ouvir a minha voz, essa voz fraca e igualmente tola para eles, não saberão o que de fato o amor denota.
Eles, com todo o seu altruísmo, serão dominados pela beleza! Sim, a beleza e o gozo da paixão. Mas o amor é uma conquista, uma possibilidade brindada à iminência da felicidade de um infeliz.

06/09/2011

Sinestesia*

O amor é a cor
                             O som
                                             O cheiro
Dois lábios conjugando o mesmo verbo
São dois corpos
                                 Brincando de dançar.






*Inspirado no texto "Pandora", do amigo Bráulio Rodrigues.

12/08/2011

À sete notas. [Ensaio I]


A vida é uma sucessão contínua de oportunidades.
(Gabriel García Marquez)


I
Dó ♫

Aquela prosopopeia da correnteza embalava os sonhos de Penélope que era, desde tenra idade, uma condenada que conhecia todas as formas de fuga, porque teve de aprender a fugir de si mesma em virtude da sua forte empatia com o espelho. A vaidade ajudava a conhecer os extremos; o que valeria a pena efetivamente. Mas Penélope era sensível. Essa conjunção adversativa persuadia a sua alma a jubilar diante da maravilha do desenho de verbos efêmeros. Efemeridade, codinome: paixão.
O rio proporcionava entendimento silenciado pelo olhar severo da guria. Porque ela nunca aprendeu a perguntar; desconhecia interrogações porque confiava demasiado na umidade ocular e no movimento das gargantas. São máscaras desnecessárias, pensava ela, porque não desmentiam culpa alguma. Ao contrário: vociferavam com certa altivez a verdade para o momento. Isso: ela também se deleitava colorindo o seu céu com paradoxos antitéticos. Ela não era má pessoa; só precisava de um amor que não encontrava entre suas equações. Então, optou pelo plural como exercício. Seus rapazes nunca a conheceram. Talvez por conta de seu rosto sem espinhas ou por seu frenesi mental.
Um rapaz distinto fora apresentado a Penélope entre claves desgovernadas criadas por ela. Hector era a personificação da cortesia combinada com sua timidez. Ela não o conhecia, mas ele já ouvira falar acerca dela. Eram dois estranhos e o tempo não solucionou o problema.
Houve um intervalo para que ambos amadurecessem suas próprias ideias e ideais. Penélope permanecia em sua rehab amorosa, porque a desconfiança fora sua droga. Seu coração era afável, mas tinha mente severa. Hector buscava, em contrapartida, a desordem para sua paz. E, de certa forma, conseguiu.
Hector amava Penélope, mas era um amor consciente demais para ser sacramentado. Inspirava insubstancialidade porque ele dessubstantivizou o verbo. Penélope não tinha a destreza do chistoso rapaz para conjugar verbos, mas ela sorria. Havia a beleza da distância física para que eles aprendessem a conhecer o sabor da palavra. Entretanto, Penélope queria sinestesia; ele, gradação.
Hector transcendia de um encanto epidêmico para o cavalheirismo hereditário. Era costume. Nada comparado à hipérbole do corpo que se opunha a fragilidade de sua voz. O universo dele era descrito na ponta do lápis e seus rabiscos contavam sua história. Ele sentia atração pela graça das abençoadas cortesãs, mas cultuava o matrimônio. Ele sempre soube como se distrair. O gaiato tinha caligrafia de um gentleman e a voz de um Ministro. Estava no sangue. Ele tinha todas as armas e desarmou-se; todas as palavras, mas calou-se. Tinha tudo, mas era conto.
Era mais simples antes de Penélope porque ela não era normal. Ela não permitia que ele a conhecesse porque sabia que seria em vão; que ele já estava dentro demais para ridicularizar a história. Ele perguntava demais. Muito embora fosse cômodo negar, Penélope não resistia à própria sinceridade: ela o amava. Ela vivera, efetivamente, um amor limpo e purificado pela maldade de não consumá-lo. Ela hesitava em vê-lo porque ele não a poderia tocar porquanto estava fascinado pela alegoria da ficção e ambos atuavam como dois apaixonados, desesperados de saudade. Do que nunca viveram.

14/07/2011

Floπida Veπitatis.

Sinto um vazio que já não é novidade. As minhas contas exatas são sempre nulas. Sinto que o que me falta não são amores; ou ter amor, mas ouvidos. O meu corpo é tão rico que subornou a minha alma. Os meus amigos deleitam-se num sono que ignora a minha loucura. A minha solidão é a punição mais severa. Admito a minha culpa.
O amor pronunciado ao pé-da-letra rasga a minha garganta, porque eu não aprendi a ser clara com toda certeza. Creio que exista um mapa que conduz os meus remédios carnívoros e sensíveis para o meu interior. Eu me anulo quando eu me subtraio de mim. A minha doença é incurável e a completude não existe, porque toda eternidade tem fim.
Essa angustia que eu sinto demonstra o que vale a pena. Eu sempre encontro as minhas respostas, porque ninguém é capaz de responder às minhas interrogações pessoais. Não quero ajuda. Quero sofrer as consequências; deleitar-me à minha desgraça e à minha ventura igualmente.
Eu sou a voz e os sentimentos do outro. Eu minto mesmo falando a verdade porque sentir e dizer são verbos que foram drasticamente separados; que não mais subordinados. Honestamente estou cansada. Cansada de dizer só para não perder e esquecer de sentir efetivamente. Amar não é considerar uma ideia, mas saber. A saudade é o script, mas o medo ainda é o palco.

17/06/2011

O último grito.

Estou tão sã aqui dentro, no meu sono. No meu luto. A minha vulnerabilidade ocular pichou as minhas verdades; sancionou os meus desejos e a minha culpa. A minha biologia confundiu a minha essência. Desmataram a minha selva; civilizaram-me. A minha respiração epidérmica falhou. Castraram o meu gozo espiritual proveniente das minhas fantasias realísticas que me mantinham siamesa ao outro.
Aprendi a cultuar o desespero; chegar ao ápice. Pedir apesar da dúvida; dar apesar do ressarcimento. Tive de me preencher com as águas que refletiam a minha imagem virtual. Fui sonhada por outrem. Invejaram a minha desgraça. O ódio demasiado amava a minha pele. E o amor alheio estampava a minha estante a despeito da necessidade.
O meu rosto é a representação da histeria. A minha armadura está incólume curando a minha bagunça invisível. Quero pedir socorro; gritar. Não desejo ressurreição, mas ter uma alma dentro do meu jazigo. O outro é o meu vício e faz com que eu pereça nessa subordinação. É o suicídio fetichizado, porque eu amo no outro o que ele tem de mim. Minhas emoções são aidéticas, porque fui traída pela falsa cura da dialética sentimental.
Não sei ser palavra avulsa. Sou um substantivo composto cujos hifens foram roubados; arrancados com dolo. O meu ódio protege o amor da minha inveja e da tua periodicidade. Ter é pretérito imperfeito, amor. Abster-me-ei das tuas vírgulas evanescentes; pontuar-me-ei do meu jeito. A inanição humana é canibal; vermelha. A paixão amorosa fora circuncidada e a vontade fora viciada. Minha voz não é despedida, mas salvação. Confessei, com a minha cegueira, a verdade que os meus lábios negavam. Não mais bastava plateia. O silêncio ensurdecia.
A minha anarquia desbocada humilha a mentira verdadeira dos outros. Os meus pensamentos assassinaram as minhas vítimas amadas. Fui traída por minha farsa quando abracei a solidão da coisa; do verbo. Do amor.

05/05/2011

Laços lassos.

       Vem do sangue, mas não precisa correr nas veias. Precisa-se de pulso; dor. Precisa-se amputar. A gestação não dura mais nove meses. O embrião é extrauterino. A mãe não precisa do ventre, mas de consciência. E toda a parentada é formada por vizinhos próximos. É de sangue.
          A árvore é estéril. Há tristeza e esperança, e há quem diga que esperança é uma coisa boa. Quem tu imaginas ser, Família, para prender alguém; acorrentar? Prender-se é morrer aos poucos. Família, entendam, não passa disso: origem.
          A pirâmide hierárquica emocional está armada. E as cordas, surradas por medo, doutrinas e carinho facultativo, não suportam mais o peso da ponte. Todos querem famílias felizes de um mesmo jeito, mas se empenham em ser criativos mediante infelicidade. Família é a faculdade moral do ser humano. É um paradoxo que oscila entre prosperidade e desgraça; um ensaio emocional; todos os tempos verbais; formação passível de formatação. A família é o desenho, a fotografia. Vem do sangue.
         Mas desafia a genética.

11/04/2011

Vεπτιgεµ.

Fonte. Da juventude. Do recomeço. Viver apesar de; não além de. Amizade é secar o copo testado pelo gole singelo da outra parte. É cochichar hostilidades para curar moléstias e vociferar elogios para exibir tal êxito num processo seletivo promovido por nós. Amizade é beijar de longe os lábios; ser o oposto mais compatível. É recortar com tesoura sem ponta. Moldar.
Amizade é compreender que é necessário saber e expor nossas qualidades sem censura. É a coragem emprestada do medo de saber segredos suicidas. Amizade não é gritá-la, mas gritar a alma do amigo. É um amor inventado; uma descoberta. É amor totalitário. É o silêncio quebrado pela voz ocular. É a eternidade resguardada pelo relógio cerebral, porquanto a memória é incubadora dos amores prematuros.
Os amigos dominam os nossos cinco sentidos. A gente ama com os olhos; ouvidos; narinas. Com a boca e com o corpo. Amizade é o teatro verossímil. É certeza; desafio. Amigos de verdade não conseguem criar uma defesa contra o outro. A amizade é assustadora, porque é um jogo limpo; uma pétala de vidro.
É vida. Estar dentro. Amizade é tatuar os pulsos. A tristeza de um amigo nos convida e nós convidamos sua alegria. Amor platônico é transcender a oferta apesar do outro. Amigos sempre sabem dosar. O amor de um amigo não é alegoria, mas samba-enredo. Os amigos nos mantêm vivos. Amizade concreta sabe preencher espaços vazios. Amigos são os espinhos ornamentados com as rosas mais belas.
Mas os sentimentos não são mais preservados, porquanto as pessoas desistem em detrimento de seu ócio emocional. As pessoas mudam e não mais se reconhecem no outro. Somos mutáveis pelos outros. Mutantes. Você, hoje, desama pessoas. Somos todos agiotas de nossos próprios sentimentos, aguardando, ansiosos, alguém devolvê-los.

27/02/2011

Sophia.


O gosto incólume que a boca dela dramatizava através da pronúncia, mitigada pela densidade explicativa da verdade, incitava o desejo infantil dos homens de alcançarem tal perfeição entonativa. Ela queria amor e era amada. Davam-lhe o corpo com almas despeças. Davam-lhe mentiras e beijos. E ela rebobinava suas memórias.
Estava fatigada. Sophia era difícil. Era simples, dentro da complexidade dos débeis. A preguiça dos homens a depreciara e ela adormecera no fundo do poço; na mesma cama na qual jazia seu desespero que ecoava nas salas lotadas de surdos. Não havia esforço para ganhá-la e desdenharam da beleza e sensualidade próprias de seu corpo escolástico. Havia reconhecimento, mas não havia platéia. Não havia ouvidos; nem bocas. Havia saliva desperdiçada no palco e palmas colidindo indiferentes.
Havia o amigo e o amante. Não amavam Sophia. Havia um preconceito estridente e silêncio. Havia sentimento sem pulso e o projetor cerebral. Havia memória e o corpo subordinados às máquinas. Amor solidário; triste; vazio. Havia medo do esquecimento; da sorte.
Não havia motivo para descobrir as madeixas e mostrar aos outros a beleza das cordas sensíveis e leves. Não havia verdade na estética bizantina; na alegria boicotada pela razão. Os amigos e os amores eram de barro. Dissolveram-se. A validade do amor é industrial.

30/01/2011

Arquipélago.

         Decerto é enquanto imersos no mar de sonhos que os homens alcançam os seus desejos mais intrínsecos, porquanto sonhos são a maior expressão do egoísmo humano. Ademais, é sonhando que se vive no mundo da solidão e fortúnio e, desta forma, num mundo ilusório, pois não há felicidade na solidão. A solidão exclui a razão; o cérebro. É a ilha!
        Ilhados.
         A vida não é senão a razão do coletivo. As respostas. E, antes de tudo, as perguntas. E vida é nada, porque não há motivo além dos pluralismos; suposições ingênuas. É um sonho de olhos abertos, com verdades sem quórum. A vida acompanha batimentos cardíacos; passos superados pós tentativas exaustivas. É a carência infantil pela atenção adulta. A vida é a necessidade do desprezo às frases negativas; o choro mais sincero do ego. Vida inexiste, porque não acreditamos nela. E não a sabemos.
          Em todo caso, esperamos. Esperamos da vida, porque não a sabemos moldar.
         O sonho é a nossa Terra possessa, diante da nossa amoralidade pedante. Espera-se do outro uma adição arbitrária; felicidade em grãos de amor. Estamos unidos pelo guardião da nossa memória, a qual nos permite experimentar sentimentos servidos como isca, a despeito do espaço implorado pela física. O cérebro está detido pelas ânsias da pele e da pulsação cardíaca. O sonho é a combinação do que é possível recordar; daquilo que pertencera ao próprio ego e que é falsificado pela vontade.
         Não há sono neste pesadelo extraordinário e a nossa ganância materialista fora sacramentada na carne. É o coletivo diferenciado pela diferença individual dos animais superiores, onde o tempo equilibra-se sobre a corda-bamba. O sonho do sono não falseia gentilezas, mas os sonhos dos iguais, despertos, traem a memória; a razão. São estereótipos legislados catedraticamente. Por dentro, estamos no escuro; num lugar atípico sobre o qual não há curiosidade suficiente para expelir através do espelho carnívoro. Por fora, somos um coletivo de máscaras metamórficas, agregadas por valores e desconfiança; um sonho que ninguém sonha sobre a cama. Por fora, somos magnos. Nosso pessimismo deriva da inocência do crescimento prematuro. Por fora, somos paisagem das peças internas; o esboço da ciência divina em dividir em substâncias o coletivo. O coração acompanha o deserto da ilha; o cérebro, o aparato da vida.
          A coleção.

31/12/2010

#tweetumdesejopara2011

Dois Mil e Dez foi um ano justo. Digo, tudo o que ele deu a quem quer que seja jamais poderia ser visto como canalhice, porque neste ano o Brasil não foi o único a mostrar a cara. Ah, Brasil! Nosso circo ainda está armado. Basta comer do pão. Nossos princípios já foram modelados no joguinho de “Show do Milhão” mesmo.
Eu vi, 2010, as pessoas te agredirem. Eu vi pessoas. Pessoas. Relógios quebrados e duas mãos vazias. Não vi pessoas. Vi imagens embaçadas, distantes; cabelos, costas, nádegas e calcanhares. Nunca rostos! Sequer houve a tentativa de cara-a-cara da parte deles. Nunca puderam abraçar, porque só havia a carne. E todos os quase cinqüenta sempre couberam na cabeceira da minha cama e meu abraço os abraçava indistintamente. E eu acordava com as mãos trocadas por sobre os ombros.
Desliguei a tevê, enquanto gladiadores lutavam no Coliseu Midiático para venderem estereótipos. Eu vi a Revolução Industrial Amorosa. Vi amizades serem vendidas em bilheterias. Senti saudade de ninguém, porque eu despi os que eu amo. Descasquei-os. Suguei os gomos. Expulsei as sombras que acompanhavam suas cascas. Emudeci, ensurdeci. Mal enxergo. Tenho 2010 motivos para rir do pessimismo.
Dois Mil e Onze, eu conheço os teus clichês. Retuitar-te-ia se pudesses dar-me verdade. Verdade dos outros ou sobre os outros. Cartas que olhem nos olhos, abraços lidos. Virtualiza o contato físico e materializa o virtual. Quero as caras à mostra, sem racionalidade ocular. Chega de esperança! Eu só quero fé.

25/12/2010

Bate [n]o sino.

          Dezembro maquia problemas familiares. Ninguém acredita mais na magicidade do Natal. A essência dessa data está sendo esquecida, esmagada pelo comércio. O Natal tem sido um eco de estética; um adeus frívolo à fé.
          Esperança é ainda uma fila de espera, porque ninguém acredita mais na ação do presente. Aliás, a ação é sempre uma perspectiva para o futuro. As pessoas temem mais do que respeitam. Rezam quase que por osmose. Não respeitam o Natal. Nem se trata de respeitar esse nome, porque isso não é um slogan, trata-se de paciência para compreender o que isso denota.
          Esse ócio humano é o palco da atuação capitalista, porque o capitalismo depende de futilidade e a futilidade, por conseguinte, depende do vazio. Vazio transbordado de qualidades bipolares. As árvores robustas e presentes já bastam. O materialismo fora fortalecido e incentivado pelo sistema. Sistema! E ninguém diz não.
          O Natal tem sido uma barganha. O próprio abraço e as palavras têm sido barganhas. Tudo dentro de um grande contrato. Compra-se sentimentos, lágrimas. Verdade. Não se chora por saudade. Pessoas choram pelo desespero de serem impedidas de conjugarem o verbo ter. Tomar posse de tudo. Todos querem protagonizar numa peça já escrita.
          Dezembro é um carnaval antecipado. Presentes, discursos e o ensaio sobre o amor. Natal é um beijo frio à neve. É o toque realista da moeda. É a união mais desunida. É família.
          É a ceia.

Publicado no site Jornal Jovem.
Repórter Jovem Comenta - Especial - Dezembro 2010, Nº 20.

20/12/2010

Noir εt Rouge.

          Sabe-se apenas que houve algum tipo de mudança. Nem ela sabia. Sua mocidade ligada à hipocondria de prender-se ao destino, mesmo incerta sobre a existência de algo tão contraditório mediante seus princípios tão bem enraizados e detalhistas quanto um projeto arquitetônico. E seus sonhos tão palpáveis, carregados de um realismo cruel — quando se tratava dela —, chegavam a raptá-la da sociedade, tão medíocre, que sequer amparava o egoísmo.
          A sagacidade daquele moleque era tão atraente quanto aquela coisa muito dela de querer investigar os outros; saber se ela se encaixaria, fosse às formas corporais ou nas almas que ela, posteriormente, roubaria para si. Eles eram como uma medalha; assim: dois aliados subordinados; fiéis. O amor seria como uma oração inóspita se eles não tivessem tido cautela. Aqueles dois corações nus seduziam-se reciprocamente. Ele mergulhado em sua sobriedade e ela apenas cantarolava seus ditos românticos que embalavam as mentes periféricas daquele bando de tolos que apenas falseavam ouvi-la.
          A carência daquele chistoso fora satisfeita por aquela cuja anatomia a transformava num inseto vulnerável, mas aquela boca inquieta feminina tapeava os rostos daqueles analfabetos funcionais por opção. Ele sabia o que estava por trás do cinismo cuspido por ela, que todos aplaudiam. Ela nunca pôde controlar a língua. Espevitada, por herança genética. Ele se embalava no balancinho da varanda e esculpia aquele corpo imaginário à mão. Aquele corpo que cresceu de dentro para fora nunca amou ou precisou desesperadamente do contato à noite fria. A maquiagem que a mantém angelical é o pó compacto, compactado pelos versos da oratória que remetiam as memórias fragmentadas de seu pupilo gemelar.
          Eles sempre souberam como lidar com exageros. Sabiam dosar a quantidade de sentimentos que muitas vezes não ultrapassavam a ponta da língua. A liberdade denotava a intimidade espiritual daqueles dois corpos. O abraço preenchia espaços vazios, ainda que persistisse o vazio microscópico. Eles nasceram grudados, em diferentes ventres. São muito pouco sem essa cola poderosa que prende seus pulsos.
          Pulsa.
          Eles não estão ligados por carinho. Isso é só a amostra. Estão ligados pelo medo. Medo de expulsarem verbalmente a vida breve. Medo de romperem o silêncio.
          De morrerem sós. E mais ainda de viverem juntos.


Publicado no site República dos autores.

17/12/2010

O coveiro e a esfinge.

          A pessoa da qual tu depreendes a capacidade intrínseca de refletir nas tuas formas corporais espelhadas é propriamente aquela da qual a tua alma se serve. Ela entendeu isso, ainda que tenha sido da forma mais inócua possível: uma adição aritmética. Fora uma gestação de 18 anos — Extrauterina —, cerebral. Uma negociação subtracional e um terno aceno ao coveiro.
          A interação entre duas almas é, no entanto, como uma prisão. Ela nunca hesitaria em vê-lo, ainda que ele representasse o polo negativo; um cisco no olho. E as memórias muito bem dispostas no HD cerebral que ela insiste em proteger. Os ouvidos atentos da jurisprudente sempre souberam a sentença, dentro da lei da vontade, para aquele caso concreto.
          Ela ainda engatinha. Mas já ensaia os passos para quando aquelas duas mãos masculinas a soltarem. E aplaudirem-na mediante o jardim que ela se encarregou de manter.
          As flores murcharam e o coveiro construiu o próprio jazigo, onde habitam as migalhas de amor, que ela apenas tem devolvido. Ela não é mais aquela hipérbole de antes, pois a física a convenceu dos benefícios do par Ação-Reação.
          Ela é exatamente o resultado das inconfidências dele. Essa figura enigmática que ela tem otimizado em seu interior é tão somente sua válvula de escape. Escapar do melhor que já lhe aconteceu; daquele que construíra a catedral do matrimônio, demolida posteriormente.
          Ele que conjugou todos os verbos, fora destruído por três letrinhas que ela disse ao som da música da harpa encantada. Três letrinhas tão certas quanto o rosto despido daquele que sempre amou.
          Ninguém.

12/12/2010

2012 também é mentira.

Estamos a dois anos do fim dos tempos. Até em filmes descrevem o que acarretará o fim. E as igrejas lotam. É como uma barganha com Deus, há de se dizer. A fé é uma garantia; um sentimento eficaz, pois ninguém conseguiu ver o rosto de Deus, suponho. É claro que já tentaram coisificar a figura do Deus mais famoso de toda a História, mas já basta, no nosso caso, saber que Ele é brasileiro. Basta que dê certo, além dos créditos ao misticismo.
Mentira! Ora, como um ser humano nato, tu nunca acreditarias em algo tão pouco palpável. Mas há sempre uma possibilidade de contrato. Lembras das promessinhas canalhas que tu fizeste só porque tu querias encobrir uma mentirinha bombástica? Para quem tu apelaste? Vais dizer que chamaste o Chapolin Colorado? Deus: quatro letras transformadas numa simples interjeição!
O problema não está na cornucópia interrogativa. Não! Está na sponcio dos que respondem. Verdades, mentiras. Tudo permeia uma aritmética nula.
Não nos desfazemos de nossa pretensão de querermos transcender. Essa coisa muito nossa de deduzir com base em fortúnio. Somos superficiais. A relatividade é uma cólera humana. Ora aplausos, ora vaias. Antagonismos que sustentam a nossa integridade; desrespeitam qualquer tentativa de antecipação. Aí tu esperas. Desesperas-te. Vemo-nos em 2012. Ou não.

11/12/2010

Apesar das vírgulas.

Ninguém mais acredita no poder da gramática; na sutileza bem escrita que sublimaria um ‘NÃO’, por exemplo. Ainda assim querem verbalizar sentimentos. Atiram tudo dentro de um envelope e enviam por sedex ou copiam um texto super mal escrito de um site qualquer e pronto: eis o seu depoimento de ‘Feliz Aniversário’.
Transformaram sentimentos em clichê. Assim: sem dó. Conjugá-los tornou-se algo tão espontâneo quanto dizer ‘Bom dia’, de dia ou ‘Boa noite’, à noite. Perderam o sabor do mistério. Eles são quase cuspidos subitamente. Habitam a vontade. Só. Digo, sentimentos existem porque tu os alardeias desesperadamente. Sempre é mais simples escrevê-los do que dizê-los. Pior: sentí-los deixou de ser prioridade, há tempos.
A linguagem é uma salada. Um mal entendido. Misturaram o que deveria ser indizível com o óbvio. Pluralizaram algo concreto, ainda que o concreto independesse de visibilidade. Complexizaram a simplicidade do verbo sentir.
As frases justificam o que nem o teu rosto consegue descrever. Essa coisa banalizada é só uma armadura. Os teus sentimentos são datados; um discurso auxiliado pela tua bela entonação. São um texto dependente de sintaxe.